Os protestos contra o governo da Bolívia levaram vários bancos a fecharem temporariamente agências em La Paz nesta terça-feira (19), em meio a preocupações com a segurança. Manifestações organizadas por sindicatos, mineradores, trabalhadores do transporte e grupos rurais se intensificaram nas últimas semanas, pressionando o presidente centrista, Rodrigo Paz, a reverter medidas de austeridade e enfrentar o aumento do custo de vida. Alguns manifestantes pedem a renúncia do presidente, refletindo uma reação mais ampla contra seu governo, que assumiu em novembro encerrando quase duas décadas de governos de esquerda. Bancos, como Banco Nacional de Bolivia, o Banco de Credito de Bolivia (BCP), Banco Economico e o estatal Banco Union, fecharam algumas agências no centro de La Paz, segundo um repórter da Reuters e comunicados divulgados na mídia local. As instituições redirecionaram clientes para serviços bancários online e caixas eletrônicos. Funcionários de cinco bancos disseram à Reuters nesta terça-feira que as operações não serão retomadas até que os protestos diminuam. A associação bancária boliviana, Asoban, se recusou a comentar as razões dos fechamentos, mas afirmou que os bancos seguem parcialmente operacionais. Embora o centro de La Paz estivesse relativamente calmo na manhã desta terça-feira, alguns manifestantes se dirigiam para a região e uma greve do transporte público foi registrada na vizinha El Alto. O acesso à Praça Murillo, onde fica o palácio presidencial, era rigidamente controlado pela polícia. Os protestos também provocaram bloqueios em estradas, deixando caminhões parados nas rodovias e contribuindo para a escassez de alimentos, suprimentos médicos e combustível. Pelo menos 32 bloqueios foram registrados nesta terça-feira. A estatal de energia Ypfb afirmou na segunda-feira que bloqueios em sua planta de Senkata e em diversas estradas do país a obrigaram a suspender envios para áreas afetadas. As autoridades devem anunciar nesta semana medidas para permitir a entrada de suprimentos em La Paz e El Alto. No Paraguai, motoristas bolivianos em um centro logístico próximo a Assunção disseram aguardar a redução das tensões em seu país. “Tenho colegas que estão na estrada há 10 dias e não conseguem chegar ao destino nem descarregar”, afirmou Richard Daza, de 47 anos. Protestos violentos abalam a capital da Bolívia Crise testa governo de Rodrigo Paz Paz, que herdou uma economia em crise, tenta reduzir gastos e diminuir subsídios aos combustíveis para estabilizar as contas públicas. Ele elevou o salário mínimo em 20%, ampliou alguns benefícios sociais e abriu diálogo com diferentes setores, mas as medidas não conseguiram conter as tensões. As autoridades acusam aliados do ex-presidente Evo Morales de incentivarem os bloqueios. O porta-voz do governo, Jose Luis Galvez, afirmou na segunda-feira que grupos violentos estão minando a democracia. Segundo o economista Gonzalo Chavez, os protestos refletem problemas estruturais mais profundos, em um momento em que a Bolívia enfrenta sua pior crise econômica em uma geração. “Não há soluções fáceis ou rápidas à vista”, afirmou Chavez, acrescentando que o país está preso entre o esgotamento de um modelo econômico estatal e a ausência de uma alternativa viável. Analistas apontam ainda que os choques globais de energia ligados à guerra com o Irã aumentam a pressão sobre famílias bolivianas em um país sem saída para o mar e cada vez mais dependente de importações de combustível. A reação dos mercados aos protestos tem sido moderada, com poucos sinais imediatos de preocupação dos investidores. O prêmio exigido pelos investidores para manter dívida boliviana em relação aos títulos equivalentes do Tesouro dos EUA caiu em maio para o menor nível desde pelo menos 2020, segundo dados da Lseg, indicando preocupação limitada com a capacidade do governo de honrar sua dívida.