Contágio global pode ser contido, mas as autoridades de saúde — inclusive as brasileiras — não podem relaxar Profissional de saúde checa temperatura de moradora da República Democrática do Congo em meio a surto de Ebola — Foto: Jospin Mwisha / AFP A Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou um painel para debater como reagir ao surto do vírus Ebola em curso na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda. Declarado emergência de saúde pública de importância internacional no domingo, ele é causado pela cepa do vírus conhecida como Bundibugyo. Não há vacina específica. A quantidade de casos suspeitos está acima de 500, incluindo mais de 130 mortes. A velocidade com que a doença se espalha tem chamado a atenção. A desconfiança é que a situação seja ainda pior, ante a falta de informações fidedignas sobre a extensão das infecções e da região até agora atingida. O vírus Ebola foi identificado pela primeira vez em 1976 numa região entre Sudão do Sul e RDC, próxima ao Rio Ebola. Das seis variantes conhecidas, quatro podem ser fatais. Neste século, a África sofreu surtos em 2003, 2007, 2014, 2015, 2016, 2019 e 2025. O pior ocorreu entre 2014 e 2016, com mais de 28.600 doentes e mais de 11.300 mortos na Guiné, na Libéria e em Serra Leoa. A alta letalidade é a característica mais assustadora do vírus. Os primeiros sintomas são febre, dores e fadiga. Em seguida, diarreia, vômito e sangramentos. Para a cepa mais comum, a Zaire, há vacinas. Com financiamento de US$ 26,7 milhões, pesquisadores das universidades de Oxford e Leipzig e da empresa Moderna trabalham em vacinas contra a Bundibugyo e outras cepas. Um dos temas do encontro da OMS são esforços para produzi-las em curto espaço de tempo. Uma das possibilidades é testar a vacina para a cepa Zaire no atual surto. Em estudos com animais, ela mostrou ter eficácia contra a Bundibugyo. Embora a OMS esteja em busca de imunização capaz de proteger as populações afetadas, ela reitera que conter doença depende de trabalho junto às comunidades “para conscientizar, combater a desinformação e garantir a adesão às medidas sanitárias, especialmente em relação aos funerais”. Um dos principais riscos da cepa Bundibugyo é seu longo período de incubação, que pode chegar a 21 dias. Isso significa que infectados assintomáticos podem viajar para outros países levando o vírus sem que sejam detectados. Por isso, na última segunda-feira as autoridades sanitárias americanas proibiram de entrar nos Estados Unidos qualquer viajante que tivesse passado por RDC, Uganda ou Sudão do Sul nos últimos 21 dias. A medida ficará em vigor por pelo menos 30 dias. Nas últimas semanas, o mundo tem acompanhado com atenção o surto de hantavírus num navio de cruzeiro. Mas o Ebola pode ter impacto maior se não houver medidas eficazes de vigilância. A província de Ituri, onde o surto foi identificado, é famosa pelo alto fluxo de viajantes atraídos pelas minas de ouro. Tudo indica que a doença demorou a ser identificada, por isso se espalhou. Na atual fase, o rastreamento de contatos e medidas de segurança — em especial nas fronteiras e aeroportos — podem contê-la. Mas é preciso agir rápido. Nenhuma autoridade sanitária do planeta pode relaxar. Isso vale para o Ministério da Saúde do Brasil.