“Se você quiser combater o crime organizado de verdade, você tem que entregar alguns nossos que estão morando em Miami”. A frase é do presidente Lula durante a cerimônia de lançamento, no dia 12 de maio de 2026, do programa Brasil contra o Crime Organizado. O programa prevê quatro eixos de ação, com recursos da ordem de 1 bilhão de reais: asfixia financeira do crime organizado (390 milhões de reais), transformação de presídios estaduais em unidades de segurança máxima (330 milhões de reais), recursos para a investigação de homicídios (200 milhões de reais) e combate ao tráfico de armas (145 milhões de reais).

Segundo Lula, a colocação sobre Miami teria sido parte da conversa que teve com Donald Trump há apenas alguns dias. Verdadeira ou não, a afirmação condensa elementos decisivos da nova frente aberta pelo governo federal na segurança pública. O programa anunciado é mais um capítulo de um movimento iniciado em 2025, com a proposta da PEC da Segurança Pública, e continuado com operações da Polícia Federal contra a cúpula financeira do Primeiro Comando da Capital — como Carbono Oculto, Quasar e Tanque —, além do projeto de lei Antifacção.

Na frase de Lula cabem três movimentos: uma concepção de crime organizado, uma proposta para enfrentá-lo e uma posição política diante dos Estados Unidos — e, por extensão, da ultradireita brasileira. Ao falar em “crime organizado de verdade”, o presidente sinaliza adesão à ideia de que há diferentes formas, escalas e níveis de atuação dentro desse fenômeno. Nem tudo que se chama crime organizado ocupa o mesmo lugar na engrenagem econômica, política e social da ilegalidade.