A um mês de capitanear a selecção francesa no Mundial de futebol, Kylian Mbappé voltou a escolher não deixar a política para os outros. O astro do futebol francês, que nunca escondeu a sua oposição à extrema-direita, tornou a irritar várias figuras da União Nacional (UN) ao declarar-se preocupado com os resultados das eleições presidenciais em França do próximo ano. “Eu sei o que significa e que tipo de consequências pode ter para o meu país quando esse tipo de gente assume o controlo”, disse na semana passada Mbappé numa entrevista à revista norte-americana Vanity Fair.As declarações tiveram reacção rápida de Jordan Bardella, actual líder da UN, e da dirigente histórica Marine Le Pen, reacendendo um debate, comum a toda a Europa, sobre se os jogadores de futebol se devem envolver na política ou limitar-se a "chutar uma bola". "Somos cidadãos. Temos voz, assim como todos os outros.", disse Mbappé.Bardella, que surge bem colocado nas sondagens para as presidenciais de 2027, aproveitou o facto de Mbappé ter saído momentaneamente das boas graças dos franceses depois de ter trocado o Paris Saint-Germain pelo Real Madrid para criticar o jogador. "Eu sei o que acontece quando Kylian Mbappé sai do Paris Saint-Germain: o clube ganha a Liga dos Campeões! (E talvez em breve uma segunda vez)", escreveu Bardella nas redes sociais, numa referência ao facto de o clube francês ter conquistado a Liga dos Campeões depois da saída de Mbappé e estar a dias de jogar a segunda final europeia consecutiva.Apenas três anos separam o atacante do Real Madrid, de 27 anos, e o líder da União Nacional, Bardella, de 30 anos. Ambos cresceram em famílias operárias e em subúrbios de Paris, mas politicamente estão em pólos opostos. Mbappé, que cresceu em Bondy, subúrbio que é lar de muitas famílias imigrantes, é o rosto de uma selecção nacional frequentemente celebrada como um símbolo de diversidade e na qual muitos apostam para vencer o Mundial deste Verão.Já Bardella representa o futuro de um partido de extrema-direita (foi a primeira pessoa a liderá-lo que não era membro do clã Le Pen) ao protagonizar uma rápida ascenção política desde 2024, devido à sua juventude e retórica. Cresceu num ambiente de classe trabalhadora e desde a adolescência que se envolve em actividades políticas. Com ascendência italiana por parte da mãe, Bardella ingressou na Frente Nacional, partido que deu origem à UN, aos 16 anos, atraído pelas políticas nacionalistas e anti-imigração do partido.Também Marine Le Pen utilizou a saída de Mbappé do PSG para o criticar pelas suas recentes declarações à revista norte-americana. “Quando ele diz que não vamos ganhar as eleições, isso tranquiliza-me, porque ele saiu do PSG para o Real Madrid dizendo que era para ganhar a Liga dos Campeões. Enquanto isso, o PSG ganhou”, disse Marine Le Pen à rádio francesa RTL. Julien Odoul, deputado e porta-voz da UN, afirmou que, como capitão da selecção francesa, Mbappé deve representar toda a França, incluindo os milhões de eleitores da UN, e que não se deve tornar num “activista político”.O artigo da Vanity Fair, que colocou Mbappé numa capa com o mote “Liberté, Égalité, Mbappé”, é publicado numa altura em que persiste a dúvida sobre quem representará a extrema-direita francesa nas presidenciais de 2027. Marine Le Pen aguarda decisão judicial, este Verão, sobre um recurso após a condenação por peculato que, neste momento, a afasta das eleições. Se voltar a perder na justiça, será o seu “delfim”, Bardella, actual presidente do partido, o candidato da extrema-direita.Esta não é a primeira vez que o jogador de 27 anos se insurge contra a extrema-direita francesa. Em Junho de 2024, dias antes das eleições legislativas francesas, e juntamente com outros jogadores, Mbappé apelo ao voto “contra os extremos”. “Penso que estamos num momento crucial na história do nosso país. A situação é inédita, por isso dirijo-me ao povo francês e à geração mais jovem, que pode fazer a diferença. Apelo aos jovens para que votem. Vemos que os extremistas estão à porta do poder, temos a oportunidade de escolher o futuro do nosso país”, disse ainda a estrela da selecção francesa.Nesse ano, Bardella também trocou farpas com Mbappé, dizendo que era vergonhoso ver atletas com muito dinheiro "a dar lições a pessoas que não conseguem mais se sustentar, que não se sentem mais seguras".Confrontado pela Vanity Fair com as opiniões de que é rico demais para discutir política, Mbappé disse: “Como jogadores de futebol, somos antes de tudo cidadãos. Não estamos desconectados do mundo... ou do que acontece no nosso país. Às vezes, as pessoas pensam que, por termos dinheiro, por sermos famosos, esse tipo de problema não nos afecta. Temos que combater a ideia de que um jogador de futebol se deve contentar em jogar e ficar calado.”Mbappé nasceu em 1998, ano em que a selecção francesa, liderada por Zinedine Zidane, venceu o Mundial de futebol. E são precisamente os passos desta estrela francesa do passado, de ascendência argelina, que instou os eleitores a rejeitarem a extrema-direita antes das eleições de 2002 e 2017 em França, que Mbappé parece estar a seguir.
Mbappé está (novamente) em rota de colisão com a extrema-direita francesa
Capitão da seleção francesa reacendeu um debate antigo sobre se os jogadores de futebol se devem envolver na política após declarar que a União Nacional representa uma ameaça para o seu país.










